O direito a mudar de pista
19 de abril de 2010, 14,30h. Avenida Rebouças, no trecho entre as Ruas Capitão Antonio Rosa e Joaquim Antunes. Velocidade média dos carros, nas duas pistas - 8km/hora, provavelmente devido ao engarrafamento provocado pelo afluxo dos carros que entram na Rebouças vindos da Joaquim Antunes / Rua dos Pinheiros. Velocidade média dos ônibus e taxis - 40km/hora. Velocidade média das motos entre as duas pistas dos carros - 60 km/hora. Freqüência das motos por minuto (FMM) - 28.
Uma senhora dirigindo um Renault Sendero beige - e não é aqui o lugar de discutir o bom gosto da cidadã - atreve-se a sair da pista onde estou, a que ocupa o espaço mais próximo da faixa exclusiva de ônibus, para ocupar um lugar apertado na outra pista, com o intuito de pegar a Joaquim Antunes a direita.
Fez a manobra corretamente, ou seja, esperou o fluxo de 40 motos seguidas, aproveitou o lapso de algumas frações de minuto para - não sem antes acionar corretamente o pisca-pisca - e mudar de pista, sem contudo desobstruir a via das motocicletas.
Um enxame de motos fez-se notar em torno da senhora, muitos dos profissionais em questão apurados no tempo pois devem cumprir várias tarefas nas duas horas que cobrem cada saída sua. Com isso, clamam contra a incivilidade da senhora, da ousadia de ter saído de uma pista para a outra, de ter atrapalhado o fluxo natural dos cidadãos que trabalham de moto.
Grito - só vocês podem andar? Não posso mudar de pista jamais?
Ouço a resposta -
1. Vai dirigir na cozinha!
2. Pode mudar desde que não atravanque, seu filho da puta!
3. Eu te arrebento o espelho retrovisor
Os motos-trabalhadores, estes dignos funcionários que garantem a entrega de coisas cada vez mais inúteis São Paulo afora, mas também de remédios necessários e urgentes, garrafas de vinho entregues a tempo, além de outros apetrechos portáteis, limitam profundamente a liberdade que se costumava ter em avenidas.
As "otoridades" urbanas não conseguem força política para inibir o evidente descalabro que é motos passando entre carros a uma velocidade várias centenas de vezes superior ao dos carros, colocando em risco suas vidas, frágeis seres humanos cuja única defesa é uma buzina que faz pi -pi -pi.
Uma pista costumava ser uma pista, um indício, uma aposta. Passou a ser um palco de crimes,tragédias e conflitos sociais.
Por mim, proibia o andar da nobre carruagem de duas rodas entre-carros nas grandes artérias e proibia totalmente sua circulação nas marginais.
Mas quem sou eu?
Enquanto uma regulamentação melhor não chega, faço o possível para civilizadamente disciplinar-me e timidamente lançar mão do pisca-pisca como arma para trocar de pista... Quando a vontade primeira e selvagem é ter como arma o lado mais grosso e pesado do taco de bilhar (versão brasileira da grande arma americana, o taco de baseball)...

3 Comments:
Breno,
Tempos modernos ... já não há respeito, civilidade, tolerância, paciência, educação, limites ...
Vai piorar com o tempo, pois as neuroses coletivas vão perturbando cada vez mais as individuais e vice versa ...
Godoy
gostei muito do que li. Voce é muito bom nisto. Alias, outro dia reli o que escreveu a meu respeito no processo para a comissão de anistia, queira te agradecer... bj guida
Breno, mas tem um problema, as motos andando atrás dos carros seria um outro inferno. Acredito que teria que educar esses donos das ruas.
Postar um comentário
<< Home